O derradeiro pôr do sol







Um homem sem nenhum amigo. Que fugia das situações que o desagradavam. Quase todas. Na verdade saía pouquíssimo de casa. Não falava com ninguém. Se sentia como um fantasma caminhando no meio dos outros. Não conseguia entender como podiam parecer tão felizes e com tanto o que fazer o tempo todo... se deslocando em bandos como os animais dos documentários que assistia todas as noites antes de dormir. Gostava de pensar que seria capaz de tirar a vida de alguém assim como se tira a vida de um animal. Muito embora não fosse capaz de matar uma barata. Sua casa estava infestada. O lugar favorito delas ficava na parte de trás de um gabinete de ferro ao lado da máquina de lavar roupas. Que raramente era colocada para funcionar.
Ele fora um recluso a vida toda. Nunca havia trabalhado. Cuidara de seu pai até o fim, e depois disso passou a usar seus ternos puídos e a viver dos rendimentos das aplicações que este tinha no banco — não eram grande coisa, mas o suficiente para que pudesse se manter. O mínimo que o velho podia fazer por ele depois de tantas noites enchendo o rabo de cachaça e depois enchendo ele de porrada. Provavelmente sofria de algum leve retardo mental, porém nunca diagnosticado.
Se perguntassem, não saberia dizer com exatidão quantos anos tinha.
Ou que ano era aquele.
Teve que juntar muita coragem para finalmente pegar o telefone e marcar um médico — após completar quase duas décadas sem ver um. No dia da consulta parou em frente a uma faculdade achando que tinha chegado ao hospital. Ele simplesmente se perdera um pouco porque olhara errado o endereço no guia de ruas — que quase ninguém mais usava havia uma década —, e quando chegou ao prédio da faculdade, decidiu que era ali o hospital.
Realmente: a maioria delas se parece com hospitais.
Ficou dentro do carro tentando se convencer de que marcar a tal consulta tinha sido uma péssima ideia. Não gostou da cor do prédio nem das janelas espelhadas. Parecia que algo de muito estranho acontecia lá dentro.
Decidiu ir embora.
Até botar a chave na ignição. E sentir a velha dor lancinante abaixo do peito.
Viu tudo laranja, suou frio, se agarrou com firmeza ao volante e trancou os dentes. Ele já conhecia o procedimento. É apenas que a dor cada vez vinha mais forte e mais frequentemente. Vomitou dentro da primeira coisa que encontrou no banco de trás; por sorte, um copinho de macarrão instantâneo. Olhou para o seu vômito e viu traços de sangue naquilo. Sem surpresa. Já vinha acontecendo fazia quatro meses.
Abriu a porta do carro. Muito frio para ser outono. Dispensou o conteúdo do copo num matinho e o atirou longe. Bateu a porta e pôs a chave no bolso. Se decidiu que faria aquilo. Existia uma recepção no local, mas ninguém deu a menor bola para ele, e ele também não viu sentido algum em se apresentar uma vez que tinha horário marcado e já sabia o número do consultório — ou sequer imaginava para que serviam recepções e coisas assim. Subiu pela escada de incêndio, pois era claustrofóbico. Nenhuma das salas era a sua no primeiro andar. No segundo o mesmo. Tampouco no terceiro. Encontrou-a no quarto andar. Não lhe ocorreu que cada andar era composto por uma dezena que se iniciava com o número do andar, como qualquer morador de uma cidade grande cheia de prédios devia saber. Não sabia como as coisas funcionavam. De modo que não lhe pareceu estranho da porta de algumas salas ser possível ver jovens sentados em cadeiras universitárias escrevendo alguma coisa enquanto uma outra pessoa falava, tampouco o fato de não haver por ali outros velhos como ele mesmo sendo empurrados em cadeiras de rodas ou macas, ou que não tivesse cruzado com uma alma viva de avental. Ele não olhava muito para as pessoas. Desistira disso muitos anos atrás. Elas também não olhavam para ele. Na verdade evitavam contato visual, e quando chegavam perto sentiam um forte cheiro de urina que instantaneamente as repelia. Ninguém queria passar muito tempo ao seu lado. Sua higiene era a de uma latrina de rodoviária depois do feriado, de fato, e o odor repulsivo emanava de outro problema que ele decidira não tratar havia mais de dez anos atrás; às vezes quando vinha, ele não conseguia se segurar.
Bateu à porta e aguardou. Bateu de novo e nada. Bateu mais uma vez. Ao total deve ter batido umas quatorze vezes. Pensou em voltar para casa. Suas costas doíam. Vinte minutos se passaram. Bateu novamente.
Resolveu testar a maçaneta.
Não estava trancada.
Sala pintada de verde. Exatamente como um consultório médico, ele imaginou. Não lhe chamou a atenção o bolor nas paredes e na poeira dos móveis — claramente uma sala em desuso. Sentou-se numa poltrona e pegou um livro sob uma cômoda antiga. Mal o abriu e...
Agora ele estava pedalando uma bicicleta em meio a um nevoeiro. Estranho aquilo; apesar de não conseguir enxergar, não batia em nada nem caía da bicicleta. Na verdade começou a perceber que ele mesmo podia definir as curvas da rua de paralelepípedos. Logo estava pedalando por caminhos que eram como os trilhos de uma montanha russa: faziam caracóis nos céus. Terminou caindo. A queda em si não o machucou; porém continuar tentando pedalar caído provocava uma queimação em seu tornozelo...
Estava de novo de volta ao consultório. A dor vinha do atrito com o carpete duro. Se pôs de pé envergonhado, os olhos arregalados procurando por alguém dentro da sala. Estava sozinho. O doutor ainda não chegara. Olhou para o seu relógio de pulso e achou muito estranho que nem cinco minutos haviam se passado desde que tinha colocado os pés para fora do carro. Numa escrivaninha viu alguns porta-retratos onde se observava pessoas sorrindo. Um porta-lápis com canetas e papéis diversos. Cartão postal de feliz ano novo empoeirado no chão. “Sim, exatamente como um consultório médico”, pensou. “Só preciso aguardar mais alguns minutos; logo o doutor vai chegar. É de se esperar que se atrasem; são pessoas muito ocupadas.”
A luz que entrava pela janela ficou mais intensa. Depois se tornou alaranjada. Por um momento se lembrou da casa de praia onde sua família passava os janeiros; tinha grandes janelas com vista para o mar e as escadas da frente davam direto na areia. Ali ele podia ficar acordado até tarde e comer — ou não comer — quando desse vontade. Adorava assustar seus primos mais novos com histórias de fantasma que inventava na hora. Ele não queria ser policial nem jogador de futebol como eles. Na verdade, não queria ser coisa alguma. Nunca mais voltou a se sentir tão feliz como naqueles tempos. Nisso ele se assemelhava às outras pessoas.
Do nada ficou escuro.
Bocejou e olhou novamente em seu relógio: nem um minuto se passara.
Na verdade seu relógio estava quebrado e ele não tinha se dado conta.
Resmungou consigo mesmo que realmente fora uma péssima ideia ter marcado essa tal de consulta. Pegou o livro novamente. O autor tinha um sobrenome que soava oriental. “Se Espremer Sai Sangue” era o título da obra. Um livro fininho de contos e poemas. Dedicatória escrita com caneta azul em letras ininteligíveis na contracapa. Abriu numa página aleatória e começou a ler. Era uma história sobre um velho que arrumava um emprego de Papai Noel e molestava uma criança e terminava sendo espancado num banco de praça. Nada muito original, mas fácil de entender. Mesmo para um sujeito como ele que não tinha o hábito. Olhou em volta, fez um rolo com o livro e colocou dentro do bolso interno do paletó.
Cruzou os braços e esperou. Decidiu resistir à tentação de olhar novamente o relógio.
Até que aquele era um sofá confortável. Precisava trocar o seu.
Pegou no sono novamente.
E nunca mais acordou.


Gilberto Sakurai “O Maldito Escritor” – 04\2018



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