Quinquagésima milionésima


— Seus pulmões estão normais —, disse o médico.
Como pode ser?, ele ficou pensando.
— Vou te receitar um remédio pra sinusite.
Era o mesmo que ele tomava por conta própria de vez em quando. Não quis sugerir ao médico que também pedisse um exame de garganta; ele nada dissera a respeito disso.
Então não devia ser nada.
O típico macho tosco covarde. Se borrando de medo de descobrir que estava com alguma coisa.
Tipo câncer.
Deixou o consultório no maior estilo macho tosco covarde. Se sentido superior. Pensando que os deuses o protegiam e outras coisas estapafúrdias.
Continuou cuspindo sangue por uma semana e uns dias. Diminuiu os cigarros. Maneirou na cerveja.
Quando sarou, voltou a fazer tudo de novo. A consciência pesada; todo dia dizendo para si mesmo “hoje eu paro”. Molhava maços de cigarro pela metade e jogava fora... de madrugada vasculhava o lixo atrás de algum que tivesse se salvado. Se sentido cada vez mais cansado e enojado consigo mesmo. Tinha o hábito de fumar um cigarro atrás do outro e sabia que não era melhor que um viciado em crack; apenas a sua droga favorita era mais leve.
Um cigarro e um café.
Um cigarro após as refeições.
Um cigarro enquanto falava ao telefone.
Um cigarro depois de falar ao telefone.
Um cigarro quando as coisas estavam dando errado.
Um cigarro quando as coisas davam certo.
Um cigarro esperando sua mulher se arrumar para sair.
Um cigarro por nenhum motivo em especial.
Um cigarro antes de dormir.
Um cigarro quando acordar.
Ele acende um e se indaga:
“Por quanto tempo vou continuar fazendo isso?”
“Quanto tempo até descobrir que estou com câncer?”
“Bom, talvez eu já esteja com câncer.”
“Tomara que tenha se espalhado e eu não precise passar por nenhum tipo de tratamento... apenas me deitar e esperar que tudo acabe logo.”
Ele pensa naqueles velhos andando por aí arrastando seus cilindros de oxigênio. Sempre param para falar com ele — porque ele sempre está com um cigarro na boca.
— A pior coisa que existe é querer respirar e não conseguir.
— Pare enquanto ainda pode.
— Existem coisas bem melhores na vida.
— Carregue uma garrafinha de água com você e tome um gole sempre que der vontade de fumar.
Etc.
Tentou substituir por chicletes por uns tempos. Até que ficou viciado em chicletes também. Seus dentes passaram a doer o tempo todo e não havia nenhum dentista que desse jeito — principalmente os açougueiros que frequentava naquela época. Voltou a trabalhar somente nos cigarros.
Ele já não é mais tão novo assim.
Não se sente muito bem na maioria dos dias.
De modo que, por não ser natural para ele se sentir bem, quando isso acontece, ele fuma vários cigarros para se sentir mal como de costume.
Não sabe por que age dessa maneira.
Isso não significa que goste de pensar que vai deixar esse hábito por o último prego em seu caixão. Acha que é mais durão do que isso. Saiu na porrada com caras duas vezes maiores. Entrou numa brincadeira de roleta russa com uns moleques sombrios que conheceu roubando um pacote de salame no mercado — só para depois lhe revelarem que o revólver não tinha bala nenhuma. Foi atropelado de rolar por cima do carro e não morreu. Podia ter morrido várias outras vezes e nada aconteceu. Foi picado por um mosquito transmissor da dengue e se safou sem procurar ajuda médica. Segundo ele mesmo.
Deuses e outras coisas estapafúrdias.
Síndrome do jaleco branco.
Desejo de morrer não tão inconsciente assim.
Etc.
Ele não fuma há vinte e um dias.
A vida continuou a mesma porcaria que sempre foi.
Quando se dá conta, está saindo da padaria com um saco de pães e um maço de Marlboro vermelho nas mãos.
“Vai ser o último.”
Essa é só a quinquagésima milionésima vez que ele diz isso.
Por um momento chega a acreditar que dessa vez vai ser pra valer.


Gilberto Sakurai “O Maldito Escritor” – 02/2018

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