Somewhere Over the Boca de Porco

Ela ainda cabe no vestido que trocou com a irmã em um par de sandálias há seis anos; eu voltei a pesar o mesmo que pesava há doze, e hoje ganho pouco mais da metade do que ganhava há dois — trabalhando quase duas vezes mais. Ela eu não sei exatamente quanto ganha, mas parou de comprar roupas e calçados toda vez que a gente sai. De modo que eu não tive de me arrepender de gastar muito mais do que valia uma camisa preta estampada com cactos, nem ela uma blusa com carinhas de cachorro durante este passeio de feriado de dia dos finados agora nos arrastando por essas galerias de lojas colaborativas da rua Augusta. Da mesma forma como deixamos de comprar várias coisas realmente necessárias ao longo do ano.
Quero dizer, é tão difícil compreender que eu não tenho obrigação nenhuma de me sentir feliz e cheio de vontade de pagar o quádruplo do que uma coisa vale numa boca de porco menos provinciana, onde todo mundo não tem que bancar as festas de todo mundo (principalmente aquelas das quais não participa), porque basicamente só o que sabemos fazer é aquilo que fomos ensinados a fazer e, não coincidentemente, aquilo que nos torna dependentes de quem nos ensinou a fazer: roubar, estuprar e matar uns aos outros quando alguém com uma arma na mão não aparece para nos impedir?
Aposto que não.
Isso explica muita coisa.
“Não entendi nada”, ela diz. “Só te perguntei se você não queria entrar em algum lugar para comer alguma coisa.”
“Pode ser.”
“Em tudo que é lugar é desse jeito.”
“Que jeito?”
“Do jeito que você estava falando.”
“Alguns nem tanto.”
“Ahã.”
...quando se tem duas bebês e um cachorro para sustentar e um apartamento relativamente novo onde todo ano aparece uma infiltração do apartamento de cima ou dá no de baixo porque vagabundo paga propina pro pessoal que organiza todas as festas pra subir um negócio desses de qualquer jeito e a garantia já não cobre mais.
“Você já falou disso também.”

: )

A gente para num estreito restaurante de comida mexicana. Ela se senta a uma das mesas do lado de fora enquanto tento decifrar o cardápio: algo feito com a intenção de te deixar completamente desorientado a fim de aceitar qualquer coisa que empurrarem sem reclamar.
Então me empurram qualquer coisa que provavelmente custa mais do que as outras, e eu aceito.
Pelo menos o negócio é enorme e pesa duas vezes um lanche do McDonald’s. O que não significa que seja bom. Nem metade apimentado o suficiente. Pelo menos tinham a minha cerveja favorita — gelada demais para o meu cuspe com sangue, mas não custou o quádruplo do que deveria custar (só custou três).
“Parece o churrasco grego que você come”, diz ela, e abocanha um pedaço fazendo uma cara estranha.
“Não, não parece”, respondo contrariado.
Na verdade o churrasco grego do centro da cidade é bem melhor do que isso, digo mentalmente. E custa sete vezes menos, acrescento.
Pego uns nachos e mais duas cervejas. Nos velhos tempos continuaríamos bebendo até o lugar fechar; hoje temos que nos manter decentes para buscarmos as bebês que ficaram na casa da minha mãe... e existem coisas piores do que não chutar o pau da barraca dia sim, dia não, como, por exemplo, voltar dirigindo se sentindo dentro de um barco naufragando, vomitar sobre a própria cama e dormir em cima, acordar com uma ressaca dupla num lugar que você não reconhece e coisas assim.
Entramos num shopping para usar o banheiro. Espero por ela olhando tranqueiras que não vou comprar em lojas que daqui há três ou quatro meses estarão fechadas. Pelo mesmo motivo que expliquei no segundo parágrafo.
Daí eu e ela temos conversado sobre pegarmos um avião e nos mandarmos para uma boca de porco debaixo de outro arco-íris onde pelo menos se contem piadas mais sofisticadas.
Como:
“2 + 2 ≠ 5”

: )

Subimos a rua e paramos para assistir a um show de uma banda de trash/groove metal na esquina com a avenida Paulista — fica fechada para o trânsito de veículos aos domingos e feriados servindo como um grande festival cultural, caso não saiba. Meio cafona, de fato. Estilo a praia dos paulistanos. Exceto pelo fato de que você tem algo para fazer além de andar de uma ponta à outra do lugar que nem um perfeito idiota insolando e pensando na maravilha que a vida é e como tudo é transcendental apesar da grande porcaria que a vida é.
Não me leve a mal, eu gosto de caminhar na praia feito um idiota qualquer que parece não saber direito como agir, apenas não preciso mais ficar pensando em metafísica e grandes projetos de vida enquanto o faço.
“Não é o Jadson?” — ela aponta para um velho batendo cabeça junto com a molecada. Se refere ao seu cunhado bêbado e drogado.
Parece, mas não é, respondo.
Tem um rapaz dormindo sentado com um barrilzinho plástico de pinga na mão que também se parece com alguém que eu via todos os dias quando olhava no espelho. Eu gostava de olha-lo no espelho. Ele achava que faria algo grande na vida.
Desistiu disso anos atrás, quando pesava o mesmo tanto que pesa hoje. Ele que deveria estar feliz por, como eu, ser pai de duas meninas lindas, e por ainda não estar comendo o pão que o diabo amassou. Mas não consegue; se sente tão miserável quanto sempre se sentiu. E não faz mais o seu estilo se confortar com a ideia de que pode por um ponto final nisso tudo. Também tem um vira-lata que depende dele.
De vez em quando ele dá as caras...
“Você deveria voltar a usar piercings na orelha”, é o tipo de coisas que ele fala.
E:
“Que roupas sem graça são essas?”
E também:
“Seria uma boa ideia passar naquela loja de bebidas e pegar uma garrafa de bourbon. Custa caro porque essa boca de porco aqui é uma tentativa de piada que nem há setenta anos atrás tinha graça; lá fora é quase o mesmo preço da pinga.”
Continua:
“Você esvaziou uma na semana passada. E daí? Você precisa relaxar um pouco.”
Não para...
“Ei, e por que não chutamos o balde? Largue esse trabalho que você absolutamente detesta de uma vez por todas. Que se exploda o dia de amanhã e ninguém liga pra tudo que você conseguiu construir com trabalho duro; vamos começar algo novo. Talvez até tirar um ano pra fazer nada, que tal?”
“Antes disso precisamos cobrir todos os espaços que sobraram nesse corpo com novas tatuagens. E contratar um advogado para ir com a gente, e arrumar uns revólveres, pacotes de cigarro mentolados, umas camisas floridas, chapéus e definitivamente vários pares de óculos escuros de barraquinha. E mais ou menos cento e cinquenta garrafas do velho Jack, sem sombra de dúvida; conheço um cara que conhece um cara que conhece outro cara que conhece um cara que consegue um preço legal nessas coisas.”
Ahã.
 “Você precisa de um tempo para si mesmo.”
“Você merece mais do que isso.”
“Você é muito melhor do que isso.”
“Você é o melhor de todos.”
Eu fiz tudo que pude para fazê-lo calar a boca. Nunca consegui. Apenas tento ignorá-lo.
Hoje vejo mais um sujeito no espelho. Bem mais velho. Também tem duas filhas e um cachorro como eu e o arroz de festa — porém, ao contrário dele, nunca fala nada. Parece feito de concreto. Fica ali me olhando como se quisesse dizer alguma coisa. Como se soubesse de alguma coisa que eu não sei.
Talvez esteja tentando se comunicar telepaticamente ou sei lá o quê.
Fico achando que morreu e ninguém tirou ele dali.
Fico achando que do nada vai gritar um monte de coisas em japonês, como fazem os yakuzas nos filmes do Takeshi Kitano.
Vai ver ele pensa o mesmo quando me vê.
Gosto do estilo dele de não abrir a boca para falar.

: )

Dirigindo a caminho de casa. Elas já não choram mais toda vez que o carro para. Jimi Hendrix tocando. Um coletânea de trabalhos que acredito que nunca antes haviam sido lançados e mais umas figurinhas carimbadas que ninguém aguenta mais ouvir. Bem decente, embora hoje em dia eu praticamente só ouça jazz (quando não tem nenhum panaca cantando/fazendo barulhos estranhos com a boca/estragando a música, obviamente). Isto quer dizer que baterista de rock me chateia até a morte. Digo, busquei a salvação no rock durante um bom tempo, e o resultado foi que terminei por naturalmente querer mais do que o gênero, dentro de suas limitações, tinha para me oferecer.
Conforme fui envelhecendo precisei escutar piadas mais sofisticadas, não só no âmbito musical.
E eventualmente contar algumas.
Que podem não ter graça para a maioria das pessoas, mas me fizeram chegar até aqui.
Que não é um lugar muito confortável, como eu disse.
Deve ser uma opção melhor do que muitas outras.
Pior do que algumas.
Stevie Ray Vaughan tocava muito melhor, mas nem de longe foi tão inventivo.
Já eu sou um guitarrista medíocre.
Que também não se sobressai em quase todo o resto — assim como a maioria da torcida do Corinthians.
Quero dizer que eu também desperdicei a vida toda tentando fazer com que 2 mais 2 se tornassem cinco.
E agora passo noites em claro no meu escritório acendendo um cigarro no outro enquanto cato papéis picados na lixeira e tento juntá-los de maneira que formem frases que, ordenadas, façam algum sentido.


Gilberto Sakurai “O Maldito Escritor” – 01/11/2018

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