Linguiça cheia



Me desagrada não poder escrever os meus troços deitado. Que é do jeito que gosto de ler e de transar, assim como a maioria das pessoas. E de ver porcaria no celular. Pois canetas não funcionam assim. Pelo menos não as que eu tenho.
Já contei essa piada em outro texto.
Que ninguém leu.
E me incomodou no passado desconfiar que eu não escrevia tão bem quanto Kafka.
Hoje a certeza disso não me causa nenhum desconforto.
Sei que ele escreve melhor do que eu pelo simples fato de que depois das primeiras 30 ou 40 páginas já começo a ficar meio de saco cheio e tenho que fazer uma força sobre-humana para continuar.
Isso também é uma piada.
“Metamorfose” é um dos meus livros favoritos. Sexy sem ser vulgar.
E ninguém perguntou.
O fato de nossos estilos serem tão diferentes não é um argumento em minha defesa tão bom quanto me pareceu ser um dia. Kafka que aos 31 anos começou a escrever aquela que é considerada a sua obra-prima, eu aos 34 me debatendo com isto que pode ser classificado como subliteratura.
Eu que costumava me vangloriar de caminhar à margem de tudo, hoje sei que só agia assim por ser incompetente e medroso demais para fazer diferente.
Nem todo mundo pode ser o Miles Davis.
Ou melhor... nem todo mundo pode ser o vizinho do apartamento ao lado.
De qualquer forma, não escrevo mais da forma como escrevia no começo da minha carreira de decorador de aquários de peixes Betta. Eu pensava que fazia aquilo para machucar aquele que me lesse. Subconscientemente o que eu queria era machucar a mim mesmo — era o que eu merecia por ser um fracasso tão grande. Que meigo e não precisava ser nenhum gênio para perceber. Significa que demorei muito tempo pra sacar. Na verdade acabei de sacar. No fim, serviu para expiar boa parte dos meus pecados, por assim dizer; tornei-me um sujeito menos intratável para os outros sujeitos que tinham/tem que conviver comigo. E eu que sei encontrar finalidades terapêuticas nas coisas é provinciano pra caramba, mas foi o que aconteceu e eu não estava buscando nenhuma. Só não consegui ser menos insuportável para mim mesmo. Continuo dando murro em ponta de faca e me sentindo infeliz. Continuo encontrando maneiras de me abstrair ou de me enfurecer para não ter de lidar comigo mesmo.
Não sei se com Kafka acontecia algo similar, mas uma coisa que temos em comum é a economia de palavras. Embora no caso dele provavelmente fosse proposital. No meu trata-se somente da Boa e Velha Limitação. Outra coisa que temos em comum é que ele também não viveu disso, como se diz. Não quero com isto insinuar que faço parte do clube dos melhores que só são reconhecidos gerações depois. Até porque eu já disse que não sou nem 10% bom quanto ele. E nossos tempos são outros; ninguém mais liga para a literatura. Ninguém mais liga para o jazz de verdade (que não é aquela coisa que você escuta no Starbucks tomando 1 litro de café aguado tentando bater um papo cabeça que você não tem conteúdo para bater, pelo amor de deus). Eu queria que as coisas fossem diferentes e isso não vai fazer com que as coisas sejam diferentes. “Seja você a diferença” é tipo uma frase de porta de banheiro de rodoviária ao lado do desenho de um cacete com um número de telefone nos bagos que não funciona quando você é um pai de família preocupado em manter um padrão de vida aceitável antes de começar a se culpar porque suas crianças começaram a fazer as mesmas coisas lamentáveis que você fazia quando tinha a idade delas.
O mais estranho é que ainda — e apesar de tudo — me divirto colocando essas linhas no papel. Gosto quando consigo largar uma sentença grande e ininterrupta provida de uma pequena dose de licença poética como essa última do último parágrafo; para mim é como um solo de sax com um monte de notas musicais enfiadas onde devia caber meia dúzia fazendo pouquíssimo esforço e soando meio inconveniente no estilo do velho Charlie. Parker, obviamente.
Pois isto, comparado a todo o resto, é muito fácil.
Para você pode não significar nada. Ou pior: um truque barato.
Que eu não disse que não era.
Charlie Parker também não disse.
Não escrevo mais para torturar os outros ou a mim mesmo. O que não significa que eu não acabe fazendo isso sem querer.
Já disse que sei das minhas limitações.
Também não estava tentando me comparar ao Bird.
Fiz um teste de Q.I. quando tinha treze anos. Deu que o meu Q.I. estava abaixo da média.
Não é uma piada.
Já falei disso em outro texto também.
Que ninguém leu.
Fiz um teste vocacional quando tinha dezesseis anos. Deu que eu não gostava de porra nenhuma. E que, portanto, não servia pra porra nenhuma.
Não sei se falei disso em outro texto.
O que quero dizer é que tive que me virar com o vento que eu tinha dentro da minha cabeça. Fazer muita besteira. E ter de lidar com a besteira que eu fazia. Até entender que o problema não era somente sobre lidar com a besteira, mas sim como fazer a besteira funcionar. E que essa coisa de viver cada dia como se fosse o último é coisa de gente cafona que parece que nunca saiu de casa.
Se você não entendeu o que acabei de dizer e quer ouvir a maior verdade que já ouviu pela segunda vez consecutiva, aqui vai:
A vida é sobre ficar de saco cheio de tanta besteira e todo dia ter que arrumar um jeito de lidar com isso.
E este troço que você está lendo é o meu vídeo game de última geração rodando o lançamento do momento (de novo o melhor jogo de todos os tempos); este é o V8 debaixo da capa de proteção, que só tiro da garagem nos finais de semana; este é o coquetel de Wild Turkey com antidepressivos que bebo devagarzinho enquanto escuto o último disco do B.B. King às duas ou três e meia da manhã; esta é a trepada mais bem dada do ano num motel furreco depois de duas doses de fogo paulista e uma de batata frita cheia de óleo e maionese passada; isto é passear de cueca samba canção assando as bolas debaixo de chuva torrencial no inferno, gostosa — e eu poderia continuar batendo uma eternamente sobre a fórmula secreta do sucesso de quase todo fulaninho que se considera um grande escritor ou grande guitarrista ou grande vendedor de lojas de móveis e eletrodomésticos não fosse pelo fato de que dos três, embora  todos estejam fazendo o que podem para garantir o leitinho das crianças, somente o último não está mentindo para si mesmo.
Sei que isto foi completamente gratuito e desnecessário.
E que agora fui redundante.
Que não sou kitsch: sou fuleiragem mesmo.
Vulgar sem ser sexy.
O que diria Kafka?
Talvez o mesmo que vou dizer agora.
Toda essa encheção de linguiça foi para dizer:
Eu escrevo para conseguir lidar comigo mesmo.


Gilberto Sakurai “O Maldito Escritor” – 03/11/2018


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